A proposta do governo de cobrar 3,5% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre transações com criptomoedas provocadas por ocorrências imediatas de associações do setor e de corretoras que atuam no Brasil. Embora haja reconhecimento de que o tema precisa ser batido com transparência, os representantes da indústria alertam para riscos de insegurança jurídica, judicialização e perda de competitividade do país caso a medida avance nos moldes atuais.
UM minuta do decreto prevê a aplicação da alíquota de 3,5% sobre a compra de ativos virtuaisequiparando essas operações às de câmbio. Hoje, transações com criptomoedas não pagam IOF. A proposta ainda será submetida a consulta pública e poderá sofrer alterações antes de eventual publicação, mas a expectativa do governo é que ela entre em vigor ainda este ano.
Os participantes do mercado criticam que o imposto possa ser instaurado via decreto, sem passar pelo Congresso, além do risco de um texto amplo que possa incluir outras criptomoedas além de stablecoins. Há também quem critica o IOF por si, ressaltando que ele é cobrado sem importar se o investidor teve lucro ou prejuízo, podendo pesar ainda mais nos investimentos.
Risco de judicialização
Para Thiago Barbosa, coordenador de Tributação da ABToken (Associação Brasileira de Tokenização e Ativos Digitais), a forma como a proposta está sendo estruturada levanta preocupações. “Como já era esperado pelo setor, o governo deve implementar a cobrança do IOF Câmbio sobre ativos virtuais ainda este ano”, afirma.
Ele destaca que a abertura de consulta pública é positiva para permitir o diálogo técnico prévio. “O ponto positivo é o amplo diálogo entre órgãos públicos e o setorpossibilitando que erros técnicos sejam corrigidos antes mesmo da norma ser publicada.”
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Por outro lado, Barbosa critica o instrumento jurídico escolhido. “O ponto negativo consistiu na tentativa de ampliação do IOF Câmbio por meio de Decretoquando o instrumento jurídico for adequado à alteração da Lei. Esse ponto técnico, caso se concretize, pode fomentar a judicialização deste IOF, o que não seria nada bom para o ecossistema dos ativos virtuais.”
A avaliação é semelhante à da ABcripto (Associação Brasileira de Criptoeconomia). A diretora-presidente da entidade, Julia Rosin, afirma que a consulta pública é relevante, mas reforça a necessidade de respeito ao processo legislativo.
“A consulta pública é um instrumento importante para ouvir o mercado e qualificar o debate. Mas é fundamental deixar claro que a criação ou ampliação de IOF sobre ativos virtuais exige o devido processo legislativo”, diz.
Segundo ela, a legislação atual vincula o IOF a operações de câmbio com troca de moeda. “Ativos digitais não se enquadram automaticamente nesse conceito. Implementar essa cobrança por via infralegal gera insegurança jurídica justamente no momento em que o setor está se estruturando para cumprir a nova regulação.”
Insegurança jurídica
Para Vanessa Butalla, vice-presidente Jurídica, de Compliance e Riscos do Mercado Bitcoin (MB), a equiparação de criptomoedas a operações financeiras tradicionais ignora a natureza jurídica desses ativos.
“Criptoativos não são operações de crédito, câmbio ou finanças típicas, mas sim bens. As negociações nesse mercado configuram compra e venda de bens, e não movimentações financeiras sujeitas à lógica do IOF”, afirma.
Ela argumenta que tributar a transação em si, independentemente do lucro, cria distorções econômicas relevantes. “Um investidor poderia pagar 3,5% mesmo tendo prejuízo. O padrão internacional é tributar o ganho de capital, ou seja, o resultado positivo da operação, e não a simples troca de ativos.”
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Butalla também alerta para princípios constitucionais: “Qualquer criação ou ampliação de carga tributária deve respeitar o devido processo legal e os princípios da legalidade e da anterioridade”.
Na avaliação da execução, um modelo mais oneroso e desalinhado com outras jurisdições pode promover a migração de operações para o exterior, prejudicando a competitividade do Brasil em um setor que vem ganhando relevância global.
O CEO da OKX no Brasil, Guilherme Sacamone, também demonstra preocupação, especialmente em relação às stablecoins. Segundo ele, stablecoins não são moeda estrangeira nem títulos representativos de moeda, em conformidade com a Lei 14.478/2022. “O fato gerador do IOF-câmbio pressupõe a liquidação de uma operação formal de câmbio, algo que não ocorre necessariamente em transações com negócios virtuais.”
Para Sacamone, ampliar essa interpretação por analogia pode gerar insegurança jurídica e desalinhar o arcabouço regulatório recentemente construído no país.
Já Guilherme Gomes, CEO da OranjeBTC, disse em uma postagem no X que o problema não é apenas na alíquota, mas há incerteza sobre como a medida será aplicada. “Tem vários problemas com tal medida, mas um deles é uma incerteza sobre como será aplicado e quais ativos ou movimentações serão impactadas por essa nova alíquota”, afirmou.
Segundo ele, embora o governo sinalize que a cobrança está ligada principalmente ao uso de stablecoins em operações internacionais, a redação ampla pode atingir outros ativos digitais, inclusive o Bitcoin.
“O IOF é um dos impostos inferiores que existem. Não é que você esteja compartilhando um possível ganho com o governo. Só por investir em Bitcoin ou stablecoins, o governo já quer retirar uma parte do capital inicial”, disse.
Para o executivo, a medida cria ruído justamente em um momento em que o setor tenta se estruturar para cumprir as novas exigências regulatórias do Banco Central. Ele afirmou que a companhia acompanhará a consulta pública e pretende se manifestar formalmente contra a proposta.
Reação política
A proposta também enfrentou resistência no campo político. O deputado federal Aureo Ribeiro, um dos principais articuladores do Marco Legal dos Criptoativos no Congresso, se posicionou contra a cobrança de IOF de 3,5% sobre operações com ativos virtuais. Segundo ele, a medida pode representar um retrocesso para um setor que ainda está em transações regulatórias no Brasil.
Em artigo publicado no Portal do Bitcoin, Aureo afirmou que o país “não precisa de mais custo” para um segmento que vem atraindo inovação, empresas e investimentos internacionais. Para o parlamentar, tributar a simples compra de criptoativos pode desestimular o investidor brasileiro e empurrar operações para fora do ambiente regulamentado nacional. Ele defende que o debate sobre eventual tributação deve ocorrer por meio de lei aprovada pelo Congresso, com ampla discussão técnica, e não por decreto.
O deputado também argumentou que o Brasil avançou ao aprovar a Lei 14.478/2022 e estruturar um modelo regulatório sob supervisão do Banco Central, criando bases para segurança jurídica e desenvolvimento do setor. Na visão dele, uma tributação imposta excessiva ou juridicamente controversa pode comprometer essa construção recente e enfraquecer a posição do país como polo potencial de inovação em ativos digitais na América Latina.
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Fonteportaldobitcoin



