A Renda Fixa Digital (RFD) deixou de ser uma promessa e passou a ocupar espaço relevante no mercado financeiro brasileiro. Em 2025, esse segmento movimentou R$ 3,3 bilhões em mais de 600 transações, com taxas de sucesso de 99,7%, segundo relatório da DeFin Research.
Com esses números, o debate mudou de nível. Agora, o foco não está mais na existência de demanda, mas sim não que ainda impeça uma entrada mais consistente do capital institucional.
Para Christian Gazzetta, sócio da DeFin Global, o mercado já superou a fase inicial. “A Renda Fixa Digital já encontrou seu primeiro motor de crescimento. O desafio agora é estrutural, não mais de validação”, afirma.
A expansão inicial da RFD ocorreu principalmente por causa do varejo. Em 2025, quase metade das operações ficou abaixo de R$ 500 mil, evidenciando o papel da democratização do acesso.
Esse movimento abriu espaço tanto para pequenas empresas captarem recursos quanto para investidores acessarem ativos antes restritos.
Ainda assim, o capital institucional já começou a aparecer em operações maiores, que chegaram a até R$ 885 milhões no período.
Segundo Gazzetta, essa diferença revela duas dinâmicas distintas. “O varejo entra pelo acesso e retorno. O institucional entra pela eficiência operacional, transparência e capacidade de controle”, explica.
Ele ressalta que o comportamento é típico de mercados em transição. “Primeiro vem a escassez. Depois, quando a estrutura madura, o institucional ganha escala”, diz.
Tributação e liquidez ainda travam expansão
Apesar do avanço, dois pontos seguem como barreiras claras: tributação e liquidez.
A questão tributária, segundo especialistas, não está na alíquota, mas na falta de clara. Uma dúvida sobre classificação, recolhimento e interpretação futura gera insegurança.
“O capital institucional não convive bem com a ambiguidade. Quando há incerteza tributária, o custo de diligência aumenta e a alocação trava”, afirma a Gazzetta.
Ao mesmo tempo, a liquidez ainda não acompanha o crescimento do mercado. Embora a tecnologia tenha processos operacionais melhorados, o mercado secundário permanece limitado.
A regulamentação atual, baseada na RCVM 88, ajudou a contribuição do setor, mas ainda restringe negociações mais amplas.
“Liquidez não é só tecnologia. É também estrutura de mercado e presença institucional. Sem isso, o crescimento perde velocidade”, diz.
Além desses pontos, os especialistas apontam um desafio menos visível, mas igualmente relevante: a falta de padronização.
Investidores institucionais dependência de análises comparáveis, ratings independentes e documentação clara para tomar decisões.
Sem isso, cada operação exige uma análise individual complexa, o que reduz a escalabilidade.
“A Renda Fixa Digital precisa falar a linguagem do institucional. Não é copiar o mercado tradicional, mas oferecer o mesmo nível de previsibilidade”, explica o Gazzetta.
Com uma demanda já comprovada, a RFD entra agora em uma fase mais exigente. O foco deixa de ser crescimento acelerado e passa a ser consolidado.
Para o especialista, o próximo ciclo dependerá da construção de um ambiente mais robusto, com clareza tributária, de liquidez real e de padrões consolidados.
“Não é mais sobre provar que funciona. É sobre criar confiança para grandes alocações”, conclui o Gazzetta.
Fontecointelegraph




