Resumo da notícia
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Estudo da USP e PUC-Rio mostra que o Bitcoin perdeu a narrativa de “ouro digital” e reage diretamente ao cenário macro.
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Desde 2019, NASDAQ, VIX, dólar e juros se tornaram preditores fortes dos retornos do BTC, principalmente em crises.
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Pesquisadores apontam que o Bitcoin se comporta como ativo de risco, com dependência assimétrica e amplificada em momentos de estresse.
Um estudo acadêmico realizado por Rafael B. Palazzi (FEA-USP), Gerson de Souza Raimundo Júnior (IAG/PUC-Rio), Marcelo Cabus Klotzle (IAG/PUC-Rio), revelou que a narrativa de ‘ouro digital’ do Bitcoin caiu por terra e que a criptomoeda é apenas mais um produto de investimento que reage ao cenário macroeconômico.
A análise, chamada Dos fundamentos da rede à integração macrofinanceira: a evolução da previsibilidade dos retornos do Bitcoincobre cinco fases do mercado, de 2014 a 2025, usando métodos capazes de captar tanto relações proporcionais (lineares) quanto dependências ocultas que só emergem em momentos extremos (não lineares).
Dessa forma, a pesquisa foi o primeiro estudo a combinar, em um mesmo framework estatístico, indicadores nativos do blockchain (on-chain) e variáveis macrofinanceiras como NASDAQ, VIX, dólar e juros americanos para investigar o que realmente prevê os retornos do Bitcoin.
“Na gestão de ativos criptográficos, lidamos diariamente com a tensão entre o que os dados on-chain mostram e o que o cenário macro impõe. O estudo confirma com rigor estatístico que MVRV e taxas de financiamento seguem como os melhores sinais de ciclos de avaliação. Mas desde 2019, ignorar juros, dólar e bolsas é um erro. O Bitcoin já está dentro do sistema financeiro global.”, disse Gerson de Souza Raimundo Júnior, pesquisador do IAG/PUC-Rio e membro da equipe de gestão da Hashdex.
Bitcoin correlacionado com ações
De acordo com o estudo, até 2018, o Bitcoin apresentava poucas oportunidades com mercados tradicionais. A partir de 2019, com entrada de instituições e estímulos da pandemia, NASDAQ, VIX, dólar e juros passaram a prever retornos do Bitcoin com alta significância.
No bear market de 2022–2023, durante uma campanha agressiva de alta de juros do Fed, essa conexão atingida o ápice e o NASDAQ se tornou o preditor macro mais forte de toda a amostra.
“A dependência entre Bitcoin e ativos tradicionais dispara justamente em crises — e de forma que modelos convencionais não captam. A proteção do ‘ouro digital’ enfraquece exatamente quando mais se precisa dela. Isso muda a conversa sobre hedge institucional”, afirma Gerson.
Assim, o estudo aponta que o Bitcoin passou a se comportar como um ativo de risco clássico: caiu com a bolsa, permaneceu com o dólar forte e reagiu rapidamente aos juros.
Em outro ‘achado’ do estudo, usando Entropia de Transferência, técnica que mede fluxos de informação que modelos tradicionais não captam, a pesquisa mostra que a dependência entre Bitcoin e mercados tradicionais não apenas aumenta em crises, mas muda de natureza: torna-se desproporcional e assimétrica.
Até 2021, essa transmissão não linear era insignificante. No bear market de 2022–2023, ela disparou: VIX, NASDAQ, ouro e juros passaram a transmitir informações não lineares para o Bitcoin. Na prática quem modela risco usando correlações de períodos normais subestima o risco de quedas amplificadas entre Bitcoin e Bolsa nos últimos momentos”, afirma o estudo
Dessa forma, os autores apontam que a narrativa do “ouro digital” tem ressalvas: apesar da analogia de deficiência, o comportamento do mercado atual é de ativo de risco, não de porto seguro.
Além disso, para gestores e reguladores, os vínculos crescentes entre criptografia e TradFi representam riscos de contaminação sistêmica, especialmente com a expansão dos ETFs.
“A natureza do Bitcoin está em constante transformação. A tese do ouro digital pode se fortalecer conforme o mercado maduro. O Bitcoin de 2030 pode agir de forma totalmente diferente do Bitcoin de 2022.”, conclui Gerson.
Fontecointelegraph




