Resumo da notícia
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Venda internacional com stablecoins marca novo passo da tokenização imobiliária
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COFECI e ONR entram em disputa sobre regras e competência regulatória
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Mercado projeta trilhões em ativos imobiliários tokenizados até 2035
A Netspaces anunciou nesta quarta-feira, 21, que realizou a venda internacional de um imóvel tokenizado no Brasil para um cidadão norte-americano. De acordo com a empresa, o negócio foi concretizado usando stablecoins.
Na transação, o cidadão americano comprou 2% de um imóvel na cobertura do prédio comercial Ágora 825, da incorporadara LB In, localizada em Santarém, no Pará. Com vista para o encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas.
Com a compra de parte do imóvel, por meio da tokenização, agora o investidor deve receber uma porcentagem proporcional relativa à locação do imóvel.
De acordo com o CEO da netspaces, Andreas Blazoudakis, a opção de digitalizar os direitos sobre um imóvel com a tokenização imobiliária garante maior interação de serviços, agilidade e segurança para todas as partes envolvidas em uma transação, mesmo em países diferentes.
“Mostramos que a tokenização imobiliária é sem fronteiras. O poder transacionar os direitos sobre um imóvel pertencente dentro de um ambiente online habilita uma vasta gama de possibilidades, indo desde transações com imóveis inteiros ou fracionados, para uso ou negociação, com opções à vista, a prazo ou a crédito, seja no Brasil ou no exterior”, explica.
Blazoudakis afirma que agora a empresa está disponível lançando uma plataforma, chamada propriedade.digital, que oferece a tecnologia e o arranjo jurídico para operar tokenização imobiliária, para construtoras, incorporadas, imobiliárias e demais parceiros estrangeiros, com foco nos mercados latino-americano e europeu.
“Estamos trabalhando desde a fundação da netspaces, em 2021, na transformação digital do mercado imobiliário e no último ano foi quando a tokenização imobiliária, de fato, surgiu. A atividade deixou de ser algo que ‘poderia ser interessante’ para se tornar uma realidade, que precisa cada vez mais de incentivos e normas. Cerca de 80% de tudo o que movimentamos nesses anos de atuação ocorridos em 2025”, complementa Blazoudakis.
Atualmente, a netspaces registra cerca de 30 mil usuários em sua carteira digital de imóveis, bem como 450 incorporadoras como clientes da plataforma. As vendas acumuladas de tokens relacionadas a imóveis superaram R$ 10 milhões. Além disso, a empresa informa que alcançou o faturamento anual de R$ 11 milhões, com o valor de mercado saltando de R$ 60 milhões em 2024 para R$ 130 milhões neste ano.
Dados da Deloitte, divulgados em abril, indicam que a tokenização de imóveis deverá movimentar US$ 4 trilhões até 2035. Segundo o CEO da netspaces, parte desse potencial será atrelado aos contratos de gaveta. Esses acordos informais de compra e venda normalmente não são registrados em cartório e, por isso, não oferecem segurança jurídica nem comprovam a propriedade. Assim, a tokenização oferece uma camada mais de segurança e dinamicidade nas transações.
A dinâmica é recorrente na venda de imóveis na planta, por exemplo, em que o comprador adquire uma promessa de compra e venda. A propriedade só se concretiza anos depois, com o registro formal, sendo que grande parte dos empreendimentos lançados no país é comercializada por meio de contratos de gaveta.
“A tecnologia de tokenização profissionaliza esses instrumentos. Registrar o contrato em blockchain, dá publicidade e gera benefícios para incorporadoras e compradores. Enxergamos que esse movimento virá ainda mais forte em 2026 e estamos empolgados com os próximos passos do setor”conclui Andreas Blazoudakis.
Tokenização de imóveis no Brasil
Apesar do potencial, o desenvolvimento dessa tecnologia no país também enfrentou polêmicas e questões regulatórias importantes. Em entrevista ao Cointelegraph Brasil, o presidente do Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis (ONR), Juan Pablo Correa Gossweiler, afirmou que a tokenização, nos moldes atuais, não garante direito de propriedade real sobre o imóvel, porque a posse de um token não se equivale à transferência do direito real no sistema registral brasileiro.
Esse ponto tem sido um dos eixos de debate entre especialistas do setor. Assim, enquanto empresas de tecnologia e alguns investidores veem a tokenização como uma forma de acelerar a liquidez e abrir o mercado imobiliário para pequenos investidores, registradores e entidades ligadas à segurança jurídica sustentam que ainda não há um arcabouço legal claro que permita que tokens substituam registros formais de propriedade.
Um dos episódios mais relevantes dessa disputa foi publicado pela Resolução COFECI n.º 1.551/2025, emitida pelo Conselho Federal de Corretores de Imóveis (COFECI) em agosto do ano passado. Essa norma buscava criar um marco regulatório para a tokenização imobiliária, definindo figuras como o Token Imobiliário Digital (TID), as Plataformas Imobiliárias para Transações Digitais (PITDs) e os Agentes de Custódia e Garantia Imobiliária (ACGIs), com o objetivo de dar segurança, padrões operacionais e maior transparência ao mercado digital.
Apesar de ter sido saudada por parte do mercado como uma tentativa de organizar um segmento ainda incipiente no país, essa resolução foi suspensa pela Justiça Federal em outubro de 2025. Um juiz concedeu liminar em uma ação movida pelo ONR, concluindo que o COFECI teria excedido sua competência normativa ao inovar no ordenamento jurídico e criar regimes jurídicos inéditos relacionados a registros imobiliários, o que seria atribuição de outros órgãos como o próprio ONR ou o Conselho Nacional de Justiça.
Fontecointelegraph




