Existe um momento curioso nos mercados. É quando acontece exatamente aquilo que deveria derrubar o preço… e o preço não cai.
Foi isso que chamou a atenção nas últimas semanas. O conflito entre EUA, Israel e Irã se intensificou, o Estreito de Ormuz entrou no radar de risco global, o petróleo disparou mais de 20%, reacendendo preocupações inflacionárias, e bolsas ao redor do mundo passaram a sentir pressão. Em um cenário tradicional de aversão ao risco, o manual diz que os ativos voláteis deveriam sofrer.
Mas o Bitcoin não desabou.
Após cair para a região dos US$ 62 mil, o ativo voltou a negociar próximo dos US$ 70 mil, mesmo com o noticiário carregado de tensão geopolítica e risco macroeconômico. Isso não é trivial. Porque quando uma notícia negativa forte não consegue empurrar o preço para novos mínimos, o mercado começa a sinalizar algo diferente: ou a maior parte da venda já aconteceu, ou há compradores absorvendo a pressão.
E é justamente aqui que existem dois fundamentos nesse momento de força relativa.
O primeiro ponto é o comportamento dos investidores de longo prazo. Enquanto parte do mercado reage ao ruído, esse grupo vem se acumulando. Nas últimas semanas, foram aproximadamente 70 mil bitcoins adicionados às carteiras desses investidores.
Historicamente, os detentores de longo prazo não compram euforias, compram medo. Eles já passaram por ciclos completos e tendem a agir quando o preço está descontado em relação ao potencial de longo prazo. Não é garantia de alta imediata, mas é um sinal importante de confiança estrutural.
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O segundo ponto são os ETFs. Depois de semanas de saídas relevantes, o fluxo foi positivo, com cerca de US$ 917 milhões em entradas líquidas recentes. Esse dado é particularmente relevante porque os ETFs são hoje a principal porta de entrada de capital institucional no Bitcoin.
Estávamos diante de um cenário de pânico estrutural, o movimento natural seria de aceleração nas saídas. O que vimos foi o contrário: capital voltando a entrar enquanto o noticiário segue negativo. Isso costuma ser um comportamento típico de dinheiro mais estratégico e menos emocional.
O terceiro ponto talvez seja o mais interessante do ponto de vista comportamental: uma demanda apareceu na queda. Durante o recuo para a faixa de US$ 62–65 mil, as buscas globais para “comprar Bitcoin” atingiram níveis elevados.
Nos ciclos anteriores, o público geralmente corriia atrás do ativo quando ele já estava em forte alta. Agora, a procura aumentou justamente nas fraquezas. Esse é um sinal de maturidade do mercado. Exija que surja sem desconto muda a dinâmica do ciclo.
Enquanto isso, boa parte dos índices de ações globais sofreu com a escalada do conflito e com o aumento do risco inflacionário trazido pela alta do petróleo. O Bitcoin, mesmo ainda distante das máximas recentes e vindo de meses de fraqueza, mostrou resiliência inesperada. Em um ambiente que deveria ser claramente negativo para ativos de risco, ele não apenas garantiu níveis importantes como a recuperação iniciada.
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Isso não elimina riscos. A guerra continua sendo um fator de incerteza relevante. O petróleo elevado pode manter a pressão inflacionária. A volatilidade pode continuar. Mas o comportamento recente sugere algo diferente do que muitos esperavam: o Bitcoin está mostrando força relativa em meio ao caos.
E quando um ativo começa a resistir em um ambiente que deveria derrubá-lo, vale prestar atenção. Muitas vezes, é nesses momentos que os ciclos começam a mudar — não quando o noticiário melhorou, mas quando o preço para de cair das mais notícias.
Sobre o autor
Pedro Fontes é graduando em economia pela UFRJ e finalista do CFA Challenge Brasil. Começou sua jornada no mercado criptográfico em 2021, trabalhando na área de tokenização de carteiras de investimento. Atualmente integra a equipe de analistas de criptomoedas do MB.
Fonteportaldobitcoin



