Nenhum outro ativo financeiro foi tão atacado quanto o Bitcoin. Mas eu não vou negar: houve, de fato, bons motivos para as diversas críticas. O BTC nunca foi perfeito.
Entretanto, foi justamente por conseguir sobreviver a todas elas, que o Bitcoin conquistou toda a sua relevância. O que antes foi visto como um experimento restrito a fóruns da internet passou a atrair investidores institucionais, empresas, governos e reguladores.
O problema é que muitas críticas sobre suas origenssão repetidas até os dias de hoje, como se o mercado ainda fosse o mesmo de uma década atrás. O cenário dos criptoativos mudou radicalmente. O BTC ganhou liquidez, infraestrutura, instrumentos regulamentados e uma presença cada vez maior no mercado financeiro global.
Claro, isso não significa que seus problemas desapareceram. A volatilidade segue alta, a regulação ainda está em evolução e a tese de reserva de valor segue sendo testada. Ou seja, temos riscos relevantes, mas o BTC não é mais o mesmo ativo, pouco líquido, puramente especulativo e restrito a poucas plataformas como antigamente.
Então a proposta de hoje é debatedora as cinco acusações mais graves do BTC. Para isso, vamos analisar os dois lados da históriatanto os argumentos, como também trazer dados atualizados para embasar a discussão. Uma análise sem o maximalismo do bitcoiner e sem o sensacionalismo das manchetes.
1. “É muito volátil”
Começando pelo ponto mais difícil de contestar atualmente: o Bitcoin é muito volátil.
Entrei no mercado criptográfico em 2017 e me lembro do BTC caindo mais de 83% logo no ano seguinte. Entre o fim de 2021 e o fim de 2022, a queda foi de aproximadamente 77%. Hoje, em relação à máxima histórica, o BTC já recua mais de 54%, e claro que pode cair mais este ano. Para quem olha apenas esses números, o ativo parece um cassino, quase que um “tudo ou nada”.
Porém, não é provável que haja risco. Ela só se torna um risco quando o investidor não sabe onde está se metendo. Pois se você está ciente da amplitude de movimento, do prazo esperado para retorno e sabe dimensionar o tamanho de sua exposição, as fortes quedas passam a ser oportunidade.
Além disso, à medida que o mercado cresce, a volatilidade do Bitcoin vem caindo consistentemente ao longo dos anos conforme o gráfico abaixo.
Embora ainda existam picos em momentos de estresse do mercado, a volatilidade anualizada de 30 dias mostra uma redução contínua, que hoje está na casa dos 35% ao ano.
A explicação para isso é simples: o mercado cresceu. Quanto maior a capitalização do Bitcoin, mais capital é necessário para movimentar seu preço. A aprovação dos ETFs com vista em 2024, seguida da entrada de empresas, governos e investidores institucionais, também colaboraram para uma mudança de comportamento do BTC.
Portanto, a solução não é tratar a volatilidade simplesmente como risco, mas sim como uma característica do ativo. A partir dela, defina-se o tamanho da sua exposição ao ativo. Por isso, independentemente da volatilidade, o BTC deve ser considerado em sua carteira de investimentos.
2. “O Bitcoin consome muita energia”
A crítica ambiental tem fundamento. A mineração de Bitcoin consome uma quantidade de energia coletados ao de países como Espanha e Austrália.
Porém, esse alto consumo, não é sinônimo de desperdício. A pergunta mais importante é: de onde vem toda essa energia?
O que a mídia não fala, é que estima-se que mais da metade da energia usada na mineração de Bitcoin já vem de fontes de baixa emissão de carbonocomo hidrelétrica, eólica, solar e nuclear.
Isso porque, a mineração é um negócio extremamente competitivo, com margens competitivas, e a energia elétrica é o principal custo operacional. Por isso, a operação tende a ser implantada onde a eletricidade é barata. Isso acontece especialmente em regiões com oferta excedente.
Em certos momentos, usinas hidrelétricas e parques solares produzem mais energia do que a rede consegue absorver. Nesses casos, a mineração de BTC pode funcionar como uma fonte de renda flexível nesses momentos, transformando a energia excedente em receita adicional, e a operação pode ser desligada quando a energia precisa atender aos consumidores. Essa estratégia já é empregada em diversas usinas.
Por isso, o BTC não está competindo com o consumo essencial, como aquecimento de casas e carregamento de carros elétricos. A mineração consome principalmente energia excedente, sem isso, a operação não é rentável.
3. “Não tem lastro”
A acusação de que o Bitcoin não tem duração, talvez seja a mais recorrente por economistas e críticos tradicionais. E, técnicas, ela está correto.
Bitcoin não é garantido por ouro. Não tem governo por trás para defendê-lo. Não possui um banco central comprometido em preservar seu poder de compra. Muito menos, é resgatável por um ativo físico.
A resposta mais comum a esta crítica, é que o real, o dólar e o euro também não têm lastro desde 1971, quando Richard Nixon anunciou a suspensão da conversibilidade do dólar em ouro. Como naquela época, o mundo operava sob a lógica de Bretton Woods. O anúncio de Nixon cerrou o padrão-ouro e consolidou o sistema monetário fiduciário.
Desde então, as moedas valem porque existe a confiança de que serão aceitas por outras pessoas amanhã e porque há uma economia e um Estado por trás delas.
Só que essa confiança pode se deteriorar rapidamente, como aconteceu na Venezuela, Argentina e Turquia. Esses países nos mostraram que ter um governo e um banco central por trás não impedem uma moeda de perder valor. Quando a emissão se torna excessiva e a política econômica perde a substituição, a confiança da população desaparece e o poder de compra evapora.
No Bitcoin, a âncora é diferente. Ele se apoia em desvantagem programada, descentralização, segurança da rede e adesão de usuários. O limite de 21 milhões de unidades é uma das principais regras do protocolo. Sua emissão é conhecida, sendo atualmente prevista em menos de 0,9% ao ano e além disso, cai pela metade a cada quatro anos com o Halving.
Também não se trata mais de uma comunidade pequena. Estimativas apontam que já temos mais de 425 milhões de investidores em BTC ao redor do mundo, além de empresas, fundos e até governos entesourando o ativo. Uma base de adoção às maiores potências econômicas do planeta.
Bitcoin não tem o mesmo tipo de lastro de uma moeda estatal. Ele opera com um modelo de confiança diferente, descentralizado e transparente. No final das contas, o investidor precisa decidir se quer continuar confiando totalmente na política governamental de governos ou diversificar seu risco em um ativo baseado em regras matemáticas claras, que não podem ser alteradas por decisões políticas.
4. “O BTC só é usado por criminosos”
A Silk Road obteve resultados positivos para o Bitcoin. Entre 2011 e 2013, o ativo foi o principal meio de pagamento do marketplace na dark web, voltado para produtos ilegais. O fundador foi preso, o site foi derrubado pelo FBI e o episódio passou a simbolizar a ligação entre Bitcoin e crime.
Por isso, naquele momento, a crítica faz sentido.
A diferença é que o Bitcoin não é anônimo, ele é pseudônimo. Todas as transações ficam registradas permanentemente no blockchain, como um livro público. Quando uma carteira é associada a uma pessoa ou empresa, seu histórico pode ser completamente comprovado.
Foi justamente essa rastreabilidade que ajudou autoridades a investigar movimentações ilícitas ao longo dos anos.
Segundo dados recentes da Chainalysis, menos de 1% das transações de criptoativos estão associadas a atividades ilícitas. Ou seja, não podemos negar que ainda há crimes, golpes e evasão de divisões envolvidas em ativos digitais.
Mas uma comparação precisa ser feita. Conforme o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), estima-se que entre 2% e 5% do PIB global é movimentado todos os anos em transações ilícitas.
O sistema financeiro tradicional, especialmente o dinheiro em espécie, ainda oferece vantagens importantes para quem quer esconder, pois por meio dele é possível circular sem deixar um histórico, mudar de mãos inúmeras vezes e dificultar a identificação de sua origem.
Por isso, diga que o Bitcoin só serve para criminosos que ignoram justamente uma das suas características mais importantes: a imutabilidade dos registros. No longo prazo, essa A transparência do BTC o torna um instrumento pouco conveniente para o uso ilícito.
5. “É esquema Ponzi”
A acusação mais grave é uma das que menos faz sentido. O Bitcoin não gera lucro, não distribui dividendos e não tem fluxo de caixa. Então, se seu preço só sobe quando novas pessoas compram, ele é um esquema Ponzi.
Mas essa conclusão mistura dois assuntos diferentes.
Um esquema Ponzi promete retornos garantidos e usa o dinheiro dos novos participantes para pagar os antigos. Além disso, depende de uma operadora central, de uma estrutura de captação constante de recursos, e quando esse fluxo diminui, o sistema inevitavelmente colapsa.
No Bitcoin não existe retorno garantido. Não há uma empresa administrando, um CEO, sede física e muito menos alguém responsável por captar dinheiro e distribuí-lo aos participantes antigos. Quem compra Bitcoin pode ganhar muito, mas também pode perder muito.
Seu preço é determinado por oferta e demanda do mercado, como acontece com o ouro, obras de arte e imóveis. O ouro também não distribui dividendos, nem gera fluxo de caixa. Seu valor depende, principalmente, da confiança no seu poder de reserva de valor e ninguém o classifica como esquema Ponzi.
O fato é que o Bitcoin foi o primeiro ativo digital, escasso e adotado globalmente. Por issoo mercado ainda está aprendendo a precificá-loou que explica seus movimentos especulativos. Mas isso vem mudando.
A aprovação dos ETFs à vista nos Estados Unidos mostrou que o ativo superou uma barreira importante do sistema financeiro tradicional. Isso não elimina seus riscos, mas é uma evidência de que chamá-lo de fraude, não se sustenta.
O risco é analisar pelos extremos
Bitcoin não é perfeito. Ele continua volátil, de fato consome muita energia, ainda enfrenta desafios regulatórios e apresenta comportamento de bolha a cada ciclo. Mas a ausência de lastro em um ativo físico, não significa que seja uma fraude, nem uma máquina de crimes e muito menos, um esquema Ponzi.
A maioria das críticas que circulam hoje, ainda se baseiam em dados de muitos anos atrás. O cenário atual é completamente diferente. O Bitcoin deixou de ser um experimento social restrito a poucos entusiastas e passou a disputar espaço nas carteiras de grandes investidores, empresas, fundos e até mesmo na reserva dos governos.
Com essa institucionalização, a tendência é vermos uma redução gradual na volatilidade e no amadurecimento do mercado, sem retirar aquilo que tornou o Bitcoin relevante: escassez, previsibilidade monetária, transparência e independência de governos.
Também Não podemos nos posicionar no extremo maximalista e achar que o BTC é perfeito e que vai resolver todos os nossos problemas. O mercado evoluiu bastante nos últimos anos, mas ainda é preciso conhecer seus riscos para definir uma exposição adequada ao seu perfil. A volatilidade ainda é alta. A regulação precisa ainda evoluir. E a afirmação como reserva de valor ainda está distante.
Não fim, o investidor precisa decidir faz sentido continuar dependendo totalmente dos governosenfrentando a inflação e a expansão monetária desenfreada, ou diversificar seu risco em um ativo baseado em regras matemáticas clarasque não podem ser alteradas por decisões políticas. Lembre-se que ficar de fora do BTC também é um risco.
Sobre o autor
Thales Inada é especialista em criptomoedas e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro, com MBA em investimentos e Asset Allocation. Atua profissionalmente no mercado criptográfico desde 2017, com passagem pelas maiores exchanges do Brasil e do mundo.
Fonteportaldobitcoin



