A tokenização mudou de estágio na América Latina. O que era promessa virou infraestrutura em construção. Reguladores, bancos e empresas montaram agora a base do mercado de capitais das próximas décadas.

Tokenizar significa transformar direitos sobre um ativo real, como um título de dívida, em registros digitais em blockchain. Blockchain é uma rede que registra e valida operações de forma pública e distribuída. O processo permite negociar esses ativos de forma fracionada e rastreável.

O mercado global de ativos tokenizados pode chegar a algo entre US$ 14 trilhões e US$ 16 trilhões até 2030. A estimativa é da consultoria Boston Consulting Group (BCG). O valor equivale a várias vezes o PIB anual de toda a América Latina.

Por que a América Latina entrou na corrida de tokenização?

Durante anos, a região ficou à margem dos fluxos globais de capital. O problema não era a falta de ativos valiosos. Era uma infraestrutura financeira, cara, lenta e pouco inclusiva, que conectava o dinheiro internacional às oportunidades locais.

A tokenização altera essa lógica na base. Um título emitido em Assunção ou em Buenos Aires pode ter acesso à liquidez global. A facilidade passa a ser semelhante a uma ação negociada em um índice internacional.

A tecnologia amadureceu. E os reguladores da região decidiram agir para não ficar para trás.

Os números reforçam o movimento. O mercado global de títulos tokenizados superou US$ 12,8 bilhões em valor onchain em abril de 2026. Valor onchain é o total registrado diretamente na blockchain. As projeções indicam que os ativos de dívida digital deverão passar de US$ 1 trilhão até 2030.

Segundo a BitGo, empresa de custódia de ativos digitais, o centro dessa transformação não está em Wall Street nem na Europa. Custódia é a guarda e a proteção segura desses ativos.

“Estamos vendo a região construir sua própria versão do mercado de capitais do século XXI, e isso não pode passar despercebido. Trata-se de um marco histórico. Os títulos tokenizados não representam o futuro do mercado criptográfico para o dia a dia. Eles já são o presente do mercado institucional. E os países que se estruturam desde o início uma infraestrutura regulada de custódia serão aqueles que definem as regras do jogo”, afirma Luis Ayala, gerente-geral da BitGo para a América Latina.

Brasil concentra o avanço da tokenização de

O Brasil é o mercado mais adiantado da região. O projeto Drex, do Banco Central, mirou a conciliação de garantias de crédito. Drex é o real em formato digital, a moeda digital oficial em desenvolvimento pelo Banco Central.

Enquanto isso, o setor privado contribuiu para a dianteira. O volume de tokens de ativos do mundo real cresceu 1,134% em um ano. Esses ativos são conhecidos pela sigla RWA, do inglês real world assets. São ativos tradicionais que ganham uma versão digital em blockchain, como títulos de dívida e recebíveis.

O volume já supera R$ 1,5 bilhão. As projeções apontam que a tokenização pode destravar até R$ 7 trilhões em crédito no país.

A pergunta das instituições mudou. Não é mais necessário tokenizar seus ativos. É qual infraestrutura de custódia usar para atender aos padrões globais.

Custódia regulamentada vira uma nova disputa institucional

Para a BitGo, o avanço regulatório na região confirma uma tese. A demanda institucional por ativos digitais em mercados emergentes não depende da maturidade do varejo. Ela depende da oferta de infraestrutura de custódia dentro de padrões internacionais.

A empresa chega a esse momento com credenciais recentes. O BitGo Bank & Trust foi aprovado como banco fiduciário nacional. Banco fiduciário, ou trust bank, é uma instituição autorizada a guardar e administrar ativos de terceiros. A supervisão ficou a cargo da Controladoria da Moeda (OCC), o órgão que regula os bancos nos Estados Unidos.

A companhia também entrou na lista Fortune 500 de 2026, que reúne as maiores empresas dos Estados Unidos por receita. Foi seu primeiro ano como empresa de capital aberto.

O que muda para o investidor institucional?

Segundo a BitGo, as instituições da região não buscam o modismo. Buscam confiança, transparência e solidez regulatória. A avaliação de um custodiante segue os mesmos critérios de sempre.

“As instituições da América Latina não estão em busca de hype. Elas buscam confiança, transparência e solidez regulatória. Quando um gestor de recursos em São Paulo, Buenos Aires, Bogotá ou Assunção avalia um custodiante, faz as mesmas perguntas que sempre fariam em qualquer banco tradicional. A diferença é que agora essas perguntas também se aplicam à infraestrutura digital. Nossa vantagem é que consigamos respondê-las”, conclui Ayala.

A tokenização, nesse cenário, deixou de ser uma aposta para o futuro. Virou resposta às ineficiências que o próprio mercado já confirmou.

O artigo Dívida digital avança na América Latina e transforma o mercado institucional foi visto pela primeira vez no BeInCrypto Brasil.

Fontebeincrypto

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