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A tokenização pode tornar o mercado financeiro mais rápido, barato e eficiente, mas também pode deixar o sistema mais vulnerável a choques, falhas operacionais e movimentos bruscos de liquidez. O alerta foi feito por Tobias Adrian, diretor do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais do Fundo Monetário Internacional (FMI), em artigo publicado nesta quinta-feira (2).

A tokenização é o processo de representação de investimentos financeiros, como ações, títulos, depósitos bancários e outros instrumentos, em redes digitais compartilhadas, como blockchains ou infraestruturas semelhantes. Na prática, isso permite que a negociação, a transferência de propriedade e o pagamento ocorram quase ao mesmo tempo, por meio de contratos inteligentes.

No sistema financeiro tradicional, uma operação costuma passar por etapas separadas: execução, liquidação, liquidação e reconciliação. Cada fase pode envolver instituições diferentes e levar dias até ser concluída. Em um ambiente tokenizado, esse processo pode ocorrer em segundos.

Segundo Adrian, essa mudança vai além de uma simples modernização tecnológica. Ao levar ativos e passivos financeiros para registros digitais compartilhados, a tokenização altera a própria estrutura do sistema financeiro. Riscos que hoje ficam nos balanços de bancos, fundos e intermediários podem migrar para plataformas, códigos e infraestruturas responsáveis ​​por coordenar as transações.

“As fricções desaparecem, mas os amortecedores também”, escreveu Adrian.

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A frase resume o principal alerta do FMI. As demoras e etapas do sistema financeiro tradicional são vistas, muitas vezes, como ineficiências. Mas eles também oferecem tempo para bancos, reguladores e gestores de risco identificarem problemas antes que eles se espalhem.

Com a tokenização, as demandas de liquidez podem surgir em tempo real, as chamadas de margem podem ser automatizadas e as falhas podem se propagar mais rapidamente para que as instituições ou supervisores reajam. Um erro de código, um choque de mercado ou uma onda de vendas automatizadas poderia gerar efeito em cadeia em poucos segundos.

Ainda assim, o FMI confirma que os benefícios são relevantes. Ativos tokenizados podem reduzir custos operacionais, acelerar pagamentos, facilitar liquidações e permitir que garantias de alta qualidade sejam usadas rapidamente em diferentes plataformas. Em mercados colateralizados, por exemplo, títulos e outros ativos poderiam ser circulares com mais eficiência, travas operacionais mais lentas.

O avanço também abre espaço para diferentes formas de dinheiro digital usadas como ativo de liquidação em uma mesma infraestrutura. Adrian cita três modelos principais: depósitos bancários tokenizados, stablecoins atreladas a moedas fiduciárias e reservas tokenizadas de bancos centrais.

Cada modelo traz vantagens e riscos próprios. Os depósitos bancários tokenizados carregam a estrutura regulatória dos bancos, mas desativam mecanismos de liquidez em tempo real. Stablecoins oferecem alcance global e programação, mas dependem da qualidade das reservas, da liquidez do mercado e da resiliência do emissor para manter a paridade. Já reservas tokenizadas de bancos centrais possuem risco de crédito no ativo de liquidação, mas ampliam o papel operacional das autoridades financeiras sobre novas infraestruturas programáveis.

Regulação precisa acompanhar a velocidade da tokenização

Para o FMI, um dos principais desafios é que os marcos regulatórios atuais foram construídos para um sistema financeiro mais lento, baseado em ciclos de dias úteis, reconciliações periódicas e instituições claramente separadas. A tokenização muda essa lógica ao concentrar funções em plataformas digitais e contratos inteligentes.

Adrian afirma que a supervisão irá além das instituições tradicionais e alcançará o próprio código. Os contratos inteligentes críticos podem se tornar “importantes demais para vencer”, exigindo acompanhamento e supervisão semelhantes aos aplicados hoje a instituições financeiras sistemicamente relevantes.

Outro risco apontado pelo FMI é a concentração. Infraestruturas tokenizadas tendem a reunir liquidez e atividade em poucas plataformas grandes. Isso pode melhorar a eficiência e a profundidade do mercado, mas também transformar falhas de governança, problemas de cibersegurança ou operações operacionais em eventos de impacto sistêmico.

A interoperabilidade também será decisiva. Se diferentes redes tokenizadas não se comunicarem de forma segura e eficiente, a liquidez pode ficar presa em plataformas isoladas, recriando riscos que a própria tokenização promete eliminar.

O FMI também chama atenção para a necessidade de clareza jurídica. Os participantes do mercado precisam saber se os registros tokenizados representam propriedade definitiva, se a liquidação em blockchain tem reconhecimento legal e qual jurisdição se aplica em operações transfronteiriças. Sem essas definições, a tokenização tende a permanecer fragmentada e periférica.

O alerta é ainda mais relevante para economias emergentes e em desenvolvimento. Segundo Adrian, pagamentos internacionais mais rápidos e baratos, melhor acesso a mercados e liquidação mais eficientes poderiam ajudar esses países a superar deficiências antigas. Mas fluxos tokenizados também podem atravessar fronteiras quase instantaneamente, diminuindo o tempo de ocorrência de autoridades econômicas.

Nesse cenário, aumentam os riscos de movimentos voláteis de capital, a substituição rápida de moedas locais por ativos digitais e a erosão da soberania monetária, especialmente se as stablecoins globais emitidas por empresas privadas se tornarem meios dominantes de pagamento.

Para o FMI, o futuro das finanças tokenizadas dependerá das escolhas feitas agora pelos governos, reguladores e bancos centrais. Entre os pontos centrais estão o papel do dinheiro público e privado, o nível de interoperabilidade entre plataformas, a governança do código, os mecanismos de liquidez de emergência e o reconhecimento jurídico das operações.

A melhor saída, segundo Adrian, seria construir um sistema que preserve bens públicos essenciais, como ativos de liquidação sem risco e supervisão controlada internacionalmente, ao mesmo tempo em que permita inovação, interoperabilidade e ganhos de eficiência.

A mensagem do FMI é que a tokenização pode transformar a arquitetura financeira global, mas não de forma neutra. Se bem regulamentado, pode fortalecer o sistema. Se avançar sem bases legais, operacionais e prudenciais adequadas, pode tornar os choques mais rápidos, concentrados e difíceis de conter.

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Fonteportaldobitcoin

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