O mercado de ativos do mundo real tokenizado, conhecido como RWAs, ultrapassou US$ 51 bilhões em valor de mercado, segundo relatório da Bernstein. O número representa uma alta de 40% no ano, em contraste com a queda de aproximadamente 20% do mercado criptográfico no mesmo período, sinal de que o interesse institucional por tokenização vem avançando mesmo em um ambiente negativo para Bitcoin, Ethereum e outros ativos digitais.
De acordo com os analistas da Bernstein liderados por Gautam Chhugan, o crédito privado segue como a principal classe de ativos tokenizados, respondendo por cerca de 47% do valor total do mercado de RWAs. Em seguida aparecem os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, com aproximadamente 30%, e as commodities, com cerca de 9%.
A atividade também segue experimentos em poucas redes. Ethereum e Provenance hospedaram juntas mais de 70% dos ativos tokenizados, com 33% e 39% da atividade total, respectivamente. O número de detentores de RWAs tokenizados já passou de 917 mil, crescimento de cerca de 60% no ano.
O avanço mostra que a tokenização deixou de ser apenas uma tese de longo prazo e passou a disputar espaço em aplicações concretas, como crédito privado, renda fixa, commodities e, mais recentemente, ações. Para Bernstein, é justamente na tokenização de ações que a competição deve esquentar mais rapidamente.
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As ações tokenizadas cresceram 130% no ano, de US$ 700 milhões para US$ 1,6 bilhão. Segundo os analistas, o setor começa a se dividir em dois modelos principais de negócio, com diferenças estruturais relevantes para investidores, empresas e reguladores.
Dois modelos disputam o futuro das ações tokenizadas
O primeiro modelo é a infraestrutura de negociação. Nesse formato, plataformas regulamentadas como corretoras compram ações reais, mantêm os papéis em custódia e emitem tokens correspondentes em blockchain. A oferta de ações tokenizadas da Robinhood para investidores da União Europeia é citada por Bernstein como o exemplo principal.
A vantagem desse modelo é a possibilidade de negociação 24 horas por dia, sete dias por semana, com liquidação em tempo real e geração de novas comissões para as plataformas. A restrição, porém, é importante: o registrador continua sendo o patrocinador do produto, e não necessariamente os detentores do token. Com isso, direitos como voto e dividendos não podem ser transferidos integralmente ao investidor.
O segundo modelo é o de infraestrutura de liquidação e bolsa. Nesse caso, o blockchain funciona como uma camada real de liquidação de ações emitidas pelas próprias empresas. Os detentores de tokens recebem direitos completos de propriedade e proteções semelhantes aos valores mobiliários listados em bolsas tradicionais.
Figure, Bullish e Securitize estão entre as empresas que tentam construir essa infraestrutura regulamentada, combinando agentes de transferência registrados na SEC, licenças de Alternative Trading System, corretoras regulamentadas e soluções de custódia.
A Figura já lançou suas próprias ações tokenizadas na plataforma OPEN e prepara outra listagem. A Bullish, por sua vez, ganhou musculatura com a aquisição da Equiiti, o que permite operar um livro unificado entre valores mobiliários tradicionais e tokenizados, além de oferecer serviços de desenho de tokens e liquidez.
A Securitize também avançou nessa frente por meio de uma parceria com a NYSE para sua plataforma de valores mobiliários tokenizados. A Computershare deve permitir a emissão de ações tokenizadas por empresas americanas, enquanto a Jump Trading trabalha em uma estrutura de negociação onchain, em formato semelhante ao de uma exchange descentralizada, para ações tokenizadas.
A Coinbase tenta seguir um terceiro caminho, descrito por Bernstein como o modelo de uma “bolsa única multiativa”. Nas últimas semanas, a empresa lançou ações tokenizadas, perpétuas de ações e perpétuas de empresas pré-IPO para investidores fora dos Estados Unidos, além de manter um mercado regulamentado de derivativos criptográficos para investidores americanos.
As ações tokenizadas da Coinbase são lastreadas 1:1 por papéis reais e trazem recursos como pagamento automático de dividendos e utilidade programável onchain. Para Bernstein, a vantagem estrutural da empresa não é fato de ser o único comerciante de comissão de futuros regulamentado pela CFTC que oferece aos investidores dos EUA acesso a derivativos criptográficos globais, incluindo futuros e opções. Esse posicionamento sustenta a proposta da Coinbase de se tornar uma espécie de “everything exchange”, reunindo diferentes classes de ativos em uma única plataforma.
Regulamento pode destravar próxima fase
Apesar do crescimento, a Bernstein avalia que a próxima etapa do mercado dependerá de avanços regulatórios. A SEC decretou revogar regras que hoje limitam a livre negociação de ações tokenizadas em ambientes descentralizados, como as regras 611 e 610(e). Uma mudança poderia permitir que ações tokenizadas fossem negociadas com menos necessidade de roteamento obrigatório por bolsas tradicionais.
Em dezembro de 2025, a SEC também emitiu uma carta de no-action para a DTC em um piloto de ações tokenizadas e aprovou propostas da NYSE e da Nasdaq para permitir a negociação de valores mobiliários tokenizados em suas respectivas bolsas.
Ainda assim, o mercado aguarda uma possível “isenção de inovação”, que poderia liberar a negociação onshore de ações tokenizadas americanas. Para Bernstein, esse seria o principal desenvolvimento para uma nova fase de crescimento.
Os volumes já mostram riqueza. As transferências mensais de ações tokenizadas atingiram US$ 5,3 bilhões em junho, em ritmo anualizado até o dia 19, acima dos US$ 3,6 bilhões de maio e muito acima dos US$ 500 milhões registrados em setembro de 2025. Segundo Bernstein, os volumes mais do que dobraram apenas nos dois meses desde abril.
Entre as maiores plataformas de tokenização por ativos, a Figura lidera com US$ 18,9 bilhões, impulsionada principalmente por crédito privado. A Securitize aparece em segundo lugar, com US$ 4,3 bilhões em exposição a títulos do Tesouro e ações. Na sequência vêm Ondo, com US$ 3,8 bilhões, Circle, com US$ 3 bilhões, e Tether, com US$ 2,5 bilhões em commodities.
O avanço dos RWAs mostra que a tokenização começa a ganhar atração para além da narrativa criptográfica. Mesmo com o mercado de ativos digitais em queda, as instituições continuarão construindo infraestrutura para levar crédito, títulos públicos, commodities e ações para blockchains. A disputa agora é menos em provar se a tokenização funciona e mais em definir quem controlará a próxima camada de negociação, custódia e liquidação dos mercados financeiros onchain.
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Fonteportaldobitcoin



