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Nas últimas duas semanas, três frentes do sistema financeiro mundial avançaram em paralelo de uma forma que aconteceria por acaso. A Meta começou a desenhar a integração de stablecoins no Facebook, Instagram e WhatsApp via Stripe. A Sony preparou um dólar digital para o PlayStation, o Crunchyroll e seus serviços de entretenimento. A Visa reportou US$ 4,6 bilhões anualizados em liquidação com stablecoins enquanto expandia a emissão de cartões para mais de cinquenta países. Ao mesmo tempo, doze dos maiores bancos europeus escolheram o Fireblocks para construir a primeira stablecoin em euro de consórcio sob o MiCA, duas instituições americanas formaram fila na Anchorage Digital para emitir suas próprias moedas, e o Senado dos Estados Unidos chegou à votação mais decisiva sobre a Lei Clareza.

O que essas histórias aparentemente dispersas são um único fio: distribuição. A próxima fase das stablecoins não será definida pela tecnologia, ela já existe, é auditada, regulamentada em diversas jurisdições e operando em produção. Será definido por quem tem usuários, canais de pagamento e licenças para operar. E para o Brasil, que avançou cedo na regulação pelo Banco Central e tem um setor de pagamentos digitais maduro, esse momento importante mais do que parece.

A Meta enviou pedidos formais a provedores de infraestrutura criptográfica para integrar stablecoins no Facebook, Instagram e WhatsApp no ​​segundo semestre de 2026. A Stripe é o parceiro mais provável: Patrick Collison entrou no conselho da Meta em abril de 2025, e a Bridge, adquirida pela Stripe por US$ 1,1 bilhão, recebeu um charter bancário condicional do OCC em fevereiro. A diferença em relação à tentativa de Libra/Diem é estrutural. A Meta não vai emitir token próprio. Vai embarcar stablecoins de terceiros em uma carteira in-app descrita internamente como “at arm’s length”.

O foco inicial são pagamentos de criadores cross-border — transferências da ordem de US$ 100 que hoje passam por wire transfer e câmbio. A escalada potencial, mais de três bilhões de usuários, não tem precedente no mercado de pagamentos digitais.

O Sony Bank seguiu uma trajetória paralela. Está construindo uma stablecoin em dólar via Bastion para pagamentos na PlayStation Store, Crunchyroll e nos serviços de entretenimento da Sony, com lançamento previsto também para 2026. O mercado americano representa cerca de 30% das vendas externas do grupo, e o ecossistema PlayStation tem mais de 110 milhões de usuários ativos financeiros. A moeda vai conviver com cartões tradicionais, mas o objetivo declarado é reduzir as taxas pagas a bandeiras, um custo que, nesse volume, é estrutural.

A leitura conjunta dos dois movimentos importa mais que cada um isolado. Meta e Sony não estão testando stablecoins. Eles estão usando o framework do GENIUS Act para construir camadas de madeira embutidas em produtos que já possuem distribuição massiva. O usuário final nem precisa entender que está usando stablecoin e simplesmente vai usar.

Doze dos maiores bancos europeus — Banca Sella, BBVA, BNP Paribas, CaixaBank, Danske Bank, DekaBank, DZ Bank, ING, KBC, Raiffeisen, SEB e UniCredit — formaram o consórcio Qivalis para emitir uma stablecoin em euro sob o MiCA, com a Fireblocks como provedora de infraestrutura. O contexto torna o movimento mais relevante do que parece. Noventa e nove por cento do valor de mercado global de stablecoins é denominado em dólar. As stablecoins em euros somam apenas US$ 650 milhões. Esses doze bancos estão construindo a resposta europeia ao domínio do dólar digital.

Do outro lado do Atlântico, a Anchorage Digital revelou no Consensus Miami que tem aproximadamente vinte instituições financeiras e big techs na fila para emitir suas próprias stablecoins. Desde o GENIUS Act, a Anchorage afirma ter conquistado todos os mandatos de emissão de grande porte no mercado americano. A Western Union já lançou o USDPT em Solana via Anchorage para liquidação 24 horas por dia, 7 dias por semana, em mais de quarenta países.

O sinal estratégico dos dois movimentos é o mesmo, em geografias diferentes: o sistema bancário deixou de tratar stablecoins como ameaça externa e começou a tratar como produto a ser emitido. Não é mais uma escolha entre defender o sistema ou aderir à infraestrutura digital. É uma corrida para construir-la antes que o outro a imitar primeiro.

Três dados publicados em sequência nas últimas semanas mudam o tom da conversa. A Fireblocks divulgou seu Estado das stablecoins com base em 295 executivos: 49% das instituições já usam stablecoins ativas em pagamentos, 90% estão operando de alguma forma e 54% das que ainda não usam planejam adotar nos próximos seis a doze meses. Os bancos tradicionais lideram o uso para pagamentos cross-border, com 58% de adoção. O motivo mais citado para entrar é a velocidade de liquidação.

A Visa reportou uma taxa anualizada de US$ 7 bilhões em liquidação com stablecoins, crescimento de 50% no último trimestre, com mais de 130 programas de emissão de cartões em quarenta países. O piloto recente com a Wealthsimple no Canadá usou USDC para liquidar transações de cartões que tradicionalmente levariam cinco dias úteis. Substituiu o ciclo bancário inteiro.

A Juniper Research projetou que pagamentos B2B crossborder com stablecoins vão alcançar US$ 5 trilhões até 2035, partindo de US$ 13,4 bilhões em 2026 — crescimento de 373 vezes. Oitenta e cinco por cento desse volume virá de fluxos corporativos, não de varejo.

No dia 14 de maio deste ano, o Comitê Bancário do Senado fez a marcação do CLARITY Act — o projeto que define como ativos digitais serão classificados nos Estados Unidos e dividirá a jurisdição entre SEC e CFTC. Três dias antes, os três maiores grupos de lobby bancário do país rejeitaram formalmente o compromisso negociado pelos senadores Tillis e Alsobrooks sobre rendimento em stablecoins. Se o projeto não avançasse antes do recesso de 21 de maio, senadores como Cynthia Lummis e Bernie Moreno alertaram que a próxima janela legislativa viável poderá ser somente em 2030.

A ironia do calendário é difícil de ignorar. Enquanto o Congresso Americano debate o framework, o Tether anunciou de forma significativa com o OFAC o congelamento de US$ 344 milhões no USDT ligado ao regime iraniano — a maior ação de fiscalização da história da empresa, parte da Operação Fúria Econômica do Tesouro. O Tether coordena hoje com mais de 340 agências de aplicação da lei em 65 países e acumula US$ 4,4 bilhões em ativos congelados.

Isso mostra que os emissores privados já estão operando como braço executivo das avaliações internacionais, com uma agilidade que os bancos tradicionais raramente demonstram em fluxos transfronteiriços. E a infraestrutura está sendo construída e usada, com ou sem o framework americano definido.

Plataformas de consumo projetando como bilhões de usuários pagarão. Bancos construindo infraestrutura de transferência. Redes de pagamento operando liquidação em produção. Números de instituições que deixaram de ser projetadas.

Para empresas brasileiras que realizam pagamentos internacionais, as perguntas do momento são concretas. O que muda no fluxo de caixa quando a liquidação passa de dias para minutos? Quanto custa esperar mais um ciclo enquanto bancos europeus, big techs americanas e redes globais constroem a próxima camada do sistema?

Essas perguntas não são do futuro. São do calendário desta semana. Quem ocupa o local de distribuição agora vai determinar como o dinheiro se moverá na próxima década.

Sobre o autor

Caio Barbosa é fundador e co-CEO da Lumx, empresa brasileira de infraestrutura blockchain focada em soluções de pagamento com uso de stablecoins. Foi eleito Forbes Under 30 em 2022 e selecionado para o Latitud Fellowship, programa que reúne os mais empreendedores da América Latina.



Fonteportaldobitcoin

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