Com os juros ainda elevados nos Estados Unidos e o dólar no radar de quem quer proteger parte do patrimônio, ganha cada vez mais força uma nova “porta de entrada” para a moeda americana no Brasil: as stablecoins, muitas vezes chamadas de dólar digital.
Além de permitir a exposição ao câmbio com liquidação quase imediata, algumas plataformas passaram a oferecer a chamada renda passiva em dólar digital, que é um rendimento pago sobre o saldo dessas stablecoins, normalmente por meio de estratégias em protocolos de finanças descentralizadas (DeFi).
A ideia é simples: além de investir em uma das moedas mais fortes do mundo, o investidor também ganha um rendimento extra conforme deixa seu dinheiro na plataforma. Mas será que vale mesmo a pena investir dessa forma em vez da tradicional compra de dólares?
O que é “renda passiva” com dólar digital
No universo criptográfico, o dólar digital costuma ser convencional de stablecoin pareado ao dólar, como o mais conhecido USDT, emitido pela Tether, e USDC, da Circle. Esses são ativos que buscam manter a paridade de 1:1 com a moeda americana, apoiados por reservas que podem ser tanto dinheiro depositado em bancos quanto títulos do Tesouro. Embora não tenham “garantia do governo” dos EUA e possam sofrer pequenas variações em momentos de estresse, eles basicamente valem sempre US$ 1.
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A “renda passiva” aparece quando esse dólar digital deixa de ficar parado e passa a ser alocado em estratégias que geram rendimento (rendimento), geralmente vinculados a empréstimos e provisão de liquidez. Na prática, você está sendo remunerado por colocar seu USDT/USDC para trabalhar dentro de um protocolo, e esse retorno costuma ser variável.
Como funciona na prática
As plataformas podem usar diferentes aplicações DeFi para oferecer retornos aos clientes. No mercado brasileiro Bitcoin (MB), por exemplo, o cliente deposita corretor de stablecoins e recebe recompensas diárias por fornecimento de liquidez para as aplicações. No caso deles, os ganhos chegam a 10% ao ano, valor superior ao da taxa de juros dos EUA, abaixo de 4%.
Vale ficar atento para que o retorno não seja fixo e nem garantido. As recompensas oscilam diariamente porque dependem da dinâmica do DeFi, mas, em geral, quando avaliadas em médio e longo prazo, costumam ficar próximas da estimativa anunciada.
No caso do MB, o protocolo em que o dinheiro é investido é a Aave, onde a taxa de remuneração é consequência direta da oferta e demanda dentro do pool. Ou seja, se há muito dinheiro disponível (muita oferta) e poucos tomadores de empréstimo, os juros tendem a cair para atrair a demanda, mas, se há muita procura por empréstimos e poucos fundos disponíveis, os juros tendem a subir para incentivar novos depósitos.
Essa mecânica, baseada no “nível de utilização” do pool (quanto o dinheiro depositado está sendo benéfico), é um dos pilares do modelo de taxa variável desses protocolos.
Rendição na prática
Para deixar tudo mais claro, vamos olhar diferentes situações que ajudam a ilustrar as vantagens da renda fixa digital em vez do investimento tradicional, considerando um horizonte de três meses de investimento.
No primeiro caso, com renda passiva em dólar digital a 5% ao ano, o ganho em três meses fica em cerca de 1,23%. Isso significa que US$ 100 renderiam cerca de US$ 1,23encerrando o período em US$ 101,23. Já US$ 1.000 renderiam aproximadamente US$ 12,27chegando a US$ 1.012,27. Em plataformas como o MB, onde as recompensas são diárias, o resultado pode variar e é possível sacar o retorno sempre que precisar.
Mas os retornos podem ser ainda maiores em um segundo cenário. O MB inicia nesta terça-feira (20) a campanha dólar digital turbinado, na qual dobra os ganhos de 5% oferecidos nesse tipo de produto, pagando agora 10% ao ano nos três primeiros meses. Nessa campanha, o retorno do trimestre sobe para algo próximo de 2,41%. Na prática, US$ 100 passariam a render cerca de US$ 2,41 no período, encerrando em US$ 102,41enquanto US$ 1.000 renderiam por volta de US$ 24,11, fechando em US$ 1.024,11.
Para saber se realmente vale a pena optar por esse tipo de investimento, é preciso compará-lo ao caminho tradicional de compra de dólares, em que o ganho tende a cobrar a taxa de juros dos EUA.
Nesse modelo, o primeiro ponto é que o investidor geralmente paga IOF de 1,1% na operação. Esse imposto, por si só, já consome boa parte do retorno no curto prazo: ao aplicar a uma taxa anual próxima de 3,62% (como o Tesouro de três meses), o rendimento em três meses fica em torno de 0,89%, enquanto o investidor já começa com uma perda de 1,1% sobre o principal.
Em números: para US$ 100, ou IOF custa US$ 1,10, você efetivamente aplica US$ 98,90, rende cerca de US$ 0,88 no trimestre e termina com US$ 99,78 (ou seja, ainda abaixo do valor inicial). Para US$ 1.000, o IOF custa US$ 11,00, você aplica US$ 989,00, rende perto de US$ 8,83 e termina com US$ 997,83. E isso é antes de considerar outro peso comum: spread cambial e taxas operacionais (banco, corretora, plataforma), que podem reduzir ainda mais o resultado líquido, especialmente em transportes menores.
Também existe uma outra opção, que hoje está entre as mais usadas, que são as contas globais de fintechs como C6, Wise e Nomad. O problema é que esse caminho já começa mais caro, com um IOF de 3,5%. Para piorar, também é comum encontrar um spread maior, que apesar de algumas plataformas oferecerem taxa 0, ele pode chegar a 2% em alguns casos.
Nesse cenário, comprando US$ 100, o IOF consome US$ 3,50, então você começa com US$ 96,50. Em três meses, isso rendeu cerca de US$ 0,86, totalizando US$ 97,36sem contar nenhum spread. Pára US$ 1.000, o IOF de 3,5% custa US$ 35,00, o valor efetivamente convertido/aplicado vira US$ 965,00, o rendimento em três meses fica em torno de US$ 8,62 e o total vai para US$ 973,62.
Confira abaixo um resumo de um investimento de US$ 1.000 em cada opção:
| Produto | Taxa de rendimento | IOF | Retorno em 3 meses | Resultado líquido |
| dólar digital | 5% ao ano | 0,00% | US$ 12,27 | US$ 1.012,27 |
| Dólar digital turbinado | 10% ao ano | 0,00% | US$ 24,11 | US$ 1.024,11 |
| Dólar tradicional | 3,62% ao ano (Tesouro de 3 meses) | 1,10% | US$ 8,83 | US$ 997,83 |
| Dólar em contas globais | 3,62% ao ano (Tesouro de 3 meses) | 3,50% | US$ 8,62 | US$ 973,62 |
E os impostos?
Uma das teses usadas por plataformas de stablecoin é que, por não ser uma compra de moeda estrangeira “nos moldes tradicionais”, a operação é isenta de IOF na compra do dólar digital. Isso ajuda a explicar por que a “renda passiva em dólar digital” é tão atrativa: quando você tira o IOF da frente, o juro “começa a trabalhar” desde o primeiro dia, em vez de primeiro pagar a conta do imposto.
Por outro lado, no Brasil, a renda passiva obtida com stablecoins é tratada como rendimento tributável no exterior. Com isso, é obrigatório informar e cobrar 15% do Imposto de Renda de acordo com as regras da Receita Federal.
Dólar “tradicional” x Dólar digital
No fim das contas, fica claro que a renda passiva em dólar digital atraiu tantos investidores e pode se mostrar mais vantajosa do que o caminho tradicional de comprar dólar e tentar torná-lo render.
A principal diferença está na fricção: no modelo clássico, o investidor muitas vezes começa “no negativo” por causa de impostos e custos de operação, com o IOF na entrada e, em vários casos, ainda spread e tarifas, o que reduz ou até anula o ganho em horizontes curtos.
Já no dólar digital, a proposta costuma ser justamente eliminar parte desse atrito, oferecendo acesso 100% digital e liquidação mais rápida, além de permitir que o saldo em stablecoins já entre em uma dinâmica de rendimento.
Isso significa que o investidor não está apenas buscando “juros”, ele também quer exposição ao dólar. Ao obter rendimento sobre USDT ou USDC, ele mantém o patrimônio atrelado à moeda americana e, ao mesmo tempo, captura uma remuneração adicional. Além disso, por serem stablecoins pareadas ao dólar, o produto tende a entregar uma experiência com menos “sustos” de preço dos criptoativos voláteis.
Isso não significa tratar o produto como renda fixa clássica. O retorno pode variar de acordo com a oferta e demanda dos protocolos, e há riscos que não existem no dólar bancário tradicional. Ainda assim, a tese faz sentido: se o objetivo é dolarizar e, ao mesmo tempo, buscar algum rendimento sem pagar o empréstimo típico do câmbio, é razoável que o dólar digital aplique como uma alternativa mais eficiente para parte dos investidores.
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