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A Lemon, uma das maiores exchanges de criptomoedas da Argentina, lançou o que descreve como o primeiro cartão de crédito Visa lastreado em Bitcoin do país, oferecendo financiamento em pesos argentinos sem obrigar os usuários a liquidarem suas reservas de BTC.

Segundo o La Nación, um dos principais jornais diários da Argentina, os clientes precisam bloquear 0,01 Bitcoin (BTC) como garantia (cerca de US$ 960 aos preços atuais) para obter um limite inicial de crédito de 1 milhão de pesos, com o BTC mantido como uma garantia imobilizada, em vez de ser vendido ou convertido para moeda fiduciária.

A Lemon planeja expandir o produto para que os usuários possam ajustar a garantia e os limites de crédito ao longo do tempo e, futuramente, liquidar compras indicadas em dólar diretamente em stablecoins atreladas ao dólar, como o USDC (USDC) ou o USDt (USDT).

De crises bancárias aos “dólares no colchão”

O lançamento reflete a desconfiança histórica dos argentinos em relação aos bancos, alimentada por desvalorizações repetidas e pelo congelamento de depósitos do “corralito” em dezembro de 2001, que destruiu economias e levou muitas famílias a manterem patrimônio em dólares em espécie, em vez de em contas em pesos.

Uma reportagem da Reuters, citando dados oficiais usados ​​no programa da Argentina com o Fundo Monetário Internacional, estima que os argentinos mantenham cerca de US$ 271 bilhões em dólares em espécies não declaradas escondidas “em colchões e contas bancárias no exterior”, bem fora do sistema financeiro formal.

Esse montante continua existindo mesmo após a iniciativa de anistia fiscal “Inocência Fiscal” do presidente Javier Milei ter levado quase 300.000 poupadores a declararem mais de US$ 20 bilhões.

Ao permitir que os usuários ofereçam Bitcoin como garantia para linhas de crédito locais, a Lemon está tentando, na prática, transformar um ativo preferido de poupança em poder de compra no dia a dia, sem forçar os poupadores a desfazerem suas posições em BTC ou suas reservas em moeda forte.

Trilhos criptográficos se aprofundam na América Latina

O cartão também chega em um momento em que os trilhos criptografados estão cada vez mais integrados às finanças da América Latina. Dados compilados a partir do Dune e de outras plataformas de análise indicam que os fluxos em trocas centralizadas na região cresceram cerca de nove vezes nos últimos três anos.

Os fluxos das exchanges atingiram cerca de US$ 27 bilhões em 2024, e a atividade criptográfica acumulada na região mudou de US$ 1,5 trilhão entre 2022 e 2025, com empresas como Bitso, Mercado Bitcoin e Lemon assumindo uma fatia crescente de remessas, proteção cambial e pagamentos do dia a dia.

Fluxos de exchanges de criptomoedas centralizadas na América Latina. Fonte: Duna

Esse cenário dá à Lemon uma base de usuários pronta, já familiarizada com o uso de ativos digitais tanto para poupança quanto para transações.

Crédito com garantia em criptomoedas vira tendência

No cenário global, o crédito com garantia em criptomoedas já não é uma novidade. Várias plataformas nos Estados Unidos, Europa e Brasil permitem que os usuários tomem empréstimos usando Bitcoin ou posições em stablecoins como garantia, e algumas fintechs oferecem cartões que utilizam linhas de crédito lastreadas em criptografia.

O diferencial da oferta da Lemon é seu posicionamento explícito como um produto de crédito rotativo denominado em pesos e garantido por Bitcoin, lançado em um ambiente bancário altamente dolarizado e ainda frágil.

Embora a inflação tenha esfriado recentemente a partir de níveis de três dígitos, ela ainda segue elevada pelos padrões globais, na faixa dos 30% baixos, e as lembranças de crises passadas continuam moldando a poupança dos argentinos.