Resumo da notícia
-
Stablecoins inauguram trilhos financeiros que funcionam fora do controle dos bancos.
-
Fintechs deixam de depender de infraestrutura bancária e ganham autonomia inédita.
-
Estudo da insights4.vc mostra como stablecoins aceleram pagamentos globais e proteção de custos.
Assim, como no Brasil, o sistema financeiro global vive um processo de transformação e digitalização que, até poucos anos atrás, parecia estranho.
Durante décadas, bancos, redes internacionais de transferência e aceleração de cartão dominaram o fluxo do dinheiro e a lógica de como esse fluxo poderia ocorrer. Qualquer inovação depende, obrigatoriamente, das permissões, limites e caminhos estabelecidos por essas instituições.
Essa realidade foi sentida ‘na pele’ por muitas empresas de criptomoedas que tiveram contas bancárias encerradas em diversos lugares do mundo sem qualquer justificativa plausível. Mesmo os pagamentos globais gigantes como Visa e Mastercard fecharam as portas para empresas criptográficas, tanto quanto em 2017-18, encerraram todos os cartões pré-pagos que tivessem qualquer ligação com criptografia.
Até as mesmas empresas que hoje dominam o mercado, como a Tether, sofreram uma consequência de concentração de poder das instituições financeiras. Em 2019 o Metropolitan Bank fechou as contas da Tether que também já tinha problemas semelhantes com outros bancos.
No entanto, essa realidade começou a se romper com o avanço das stablecoins, que deixaram de ser um experimento de nicho no mercado criptográfico para se tornar, de forma surpreendente, a base de uma nova arquitetura financeira.
A pesquisa “Fintech 3.0: Stablecoin Rails”, publicada pela insights4.vc, aponta que o setor vive o primeiro momento em que as fintechs deixam de ser inquilinas das redes bancárias e passam a operar, pela primeira vez, trilhos próprios, independentes, globais e programáveis.
Essa alteração altera o equilíbrio de poder. Pela primeira vez na história moderna das finanças, os bancos permitem de ser guardiões das vias pelas quais o dinheiro circula. E, quando se perde o controle sobre a infraestrutura, perde-se também o monopólio que estruturou o setor por séculos”, destaca o estudo
Fintech 1.0 para 3.0
De acordo com o estudo, a evolução das fintechs ajuda a entender a profundidade dessa ruptura. A primeira fase, chamada Fintech 1.0, limitou-se a digitalizar serviços bancários. Internet banking, pagamentos online e aplicativos de cartão facilitaram a vida dos consumidores, mas não mexeram na essência das operações. Todo o dinheiro continua trafegando pelas mesmas estruturas envelhecidas, como ACH, SWIFT e redes de cartões. A inovação aconteceu apenas na superfície, sem tocar na mecânica que realmente importa.
A Fintech 2.0, que ganhou força na década de 2010, ofereceu um salto de experiência, mas não de independência. Neobanks, carteiras digitais e serviços tecnológicos inovadores, porém dependem de bancos patrocinados, licenças custosas e da própria infraestrutura que buscavam desafiar. O estudo da insights4.vc destaca que essa fase manteve a inovação “no topo da pilha”, uma camada estética aplicada sobre um sistema antigo e intocável.
A Fintech 3.0 finalmente rompe esse ciclo. E, segundo o relatório, ela não nasceu da tentativa de reformar bancos, mas da ousadia do setor criptográfico em construir uma infraestrutura paralelamente, capaz de operar sem a intermediação das instituições tradicionais. O produto mais bem-sucedido dessa construção não foi a moeda descentralizada que muitos imaginavam, mas as stablecoins que rodam em redes abertas e funcionam como substitutos eficientes do dinheiro bancário.”, afirma.
O estudo destaca também que as stablecoins viabilizam transações instantâneas, baratas e disponíveis o tempo todo, independentemente de fronteiras ou fusos horários. Uma transferência em stablecoin ocorre em segundos, enquanto uma remessa internacional tradicional pode levar dias ou até semanas. A diferença não é apenas de velocidade, mas de lógica, pois elas criam trilhos novos que transformam dólares em software e permitem que o dinheiro siga regras programáveis, algo impossível nos sistemas tradicionais.
Essa programabilidade representa um ponto decisivo da revolução descrita por insights4.vc. Enquanto os bancos operam com sistemas rígidos, construídos para serem justos, mas não flexíveis, as stablecoins permitem automações complexas, como pagamentos contínuos por segundo, escrows inteligentes que liberam valores apenas quando condições são cumpridas e contratos financeiros capazes de se liquidar sozinhos. Nesse novo modelo, a liquidação e a execução ocorrem no mesmo ambiente, eliminando camadas inteiras de intermediários.
Pilha de stablecoins
O estudo também apresenta a chamada “Stablecoin Stack”, uma estrutura que detalha como essa nova economia se organiza. Na camada de liquidação, estão blockchains como Ethereum, Solana e Tron, que funcionam como uma nova infraestrutura global de pagamentos. Eles substituem, em velocidade e eficiência, sistemas como FedWire e SWIFT.
Na emissão de emissão, empresas como Circle e Tether transformam reservas tradicionais em tokens digitais. Já na camada intercalada estão ferramentas de custódia, conformidade, infraestrutura de API e serviços corporativos que permitem a adoção de stablecoins sem exigir que as empresas compreendam cada detalhe técnico do funcionamento do blockchain. Por fim, no topo da pilha, surgem os produtos que o usuário vê, como carteiras, aplicativos de pagamento, soluções de remessas e neobanks construídos diretamente sobre stablecoins.
De acordo com o estudo, a importância dessa organização não é fato de que ela reduz drasticamente o custo para criar produtos financeiros. Se antes um empreendedor começou a negociar com bancos, pagar licenças altas e navegar por infraestruturas lentas, agora basta integrar APIs de stablecoins para lançar, em semanas, serviços que antes são planejados em anos de desenvolvimento. É esse o aspecto que cria o cenário descrito no relatório: nunca foi tão barato e tão rápido construir um banco sem ser banco.
Essa redução de barreiras abre uma avalanche de novos mercados. Um dos casos mencionados no estudo é o dos freelancers internacionais, que sofre com taxas elevadas e atrasos previsíveis na recuperação de pagamentos. Usando stablecoins, eles recebem em segundos, preservam o valor em dólar e podem converter para moeda local quando desejarem. O impacto é direto na renda desses trabalhadores, que antes perdiam até 10% para intermediários. O relatório mostra que, em algumas plataformas, um terço dos freelancers já optou por receber em stablecoins.
O estudo de tecnologia aponta que outro grupo beneficiado é o das empresas nativas de, especialmente as que atuam com blockchain. Muitas dificuldades para abrir contas bancárias devido a restrições regulatórias. Stablecoins eliminam esse gargalo e permitem que equipes distribuídas globalmente recebam e paguem períodos sem fricção. Plataformas de contabilidade, folha de pagamento e compliance para equipes Web3 surgem como novos negócios altamente lucrativos.
Os efeitos se estendem ao comércio internacional. Pequenas e médias empresas costumam sofrer com custos elevados e prazos longos em transferências internacionais. Uma remessa pode levar semanas para ser compensada e consumir até 6% do valor da transação. Com stablecoins, pagamentos ocorrem quase em tempo real, reduzindo custos e liberando capital de giro de forma imediata. Isso muda completamente a competitividade de pequenas empresas no mercado global. A revolução também alcança setores inesperados, como o de bens de luxo. Relógios, joias e obras de arte costumam gerar transações internacionais urgentes e de alto valor. Stablecoins oferecem liquidez instantânea e verificável, redução de riscos de fraude e substituição de escrows tradicionais por contratos inteligentes. O processo fica mais rápido, barato e seguro.
Fim dos bancos?
A insights4.vc destaca que a transição para um sistema financeiro nativo em stablecoins ainda enfrenta desafios já que a regulação global permanece fragmentada e, em alguns países, ainda indefinida. A confiança no último das stablecoins é crucial e ainda está muito ligada também ao sistema bancário. Questões de escalabilidade, segurança e usabilidade também desabilitam soluções.
O sistema bancário tradicional não desaparecerá. Ele continuará tendo papel relevante em crédito, compliance e integração com o sistema estatal. Mas seu poder de decidir como o dinheiro circula, quanto custa enviá-lo e quem tem acesso a quais serviços está, pela primeira vez, sendo erodido por uma infraestrutura tecnológica superior, global e aberta. O relatório da insights4.vc ressalta que essa transição será gradual, mas irreversível. O mundo financeiro entra agora numa fase híbrida, em que bancos coexistem com trilhos baseados em stablecoins. No futuro, muitos usuários talvez nem percebam que estão usando stablecoins. Elas funcionarão nos bastidores, assim como a internet opera hoje, sem que os consumidores precisem entender seus protocolos.
Fontecointelegraph




