Uma nova pesquisa do Google sobre computação quântica reacendeu uma preocupação antiga no mercado de criptografia: até que ponto o Bitcoin está preparado para um futuro em que máquinas muito mais poderosas consigam quebrar a criptografia usada hoje para proteger carteiras e transações.
O alerta ganhou força porque o Google Research disse ter reduzido em cerca de 20 vezes a estimativa de recursos necessários para atacar a criptografia de curva elíptica usada por blockchains como a do Bitcoin. Ao mesmo tempo, a empresa reforçou 2029 como seu horizonte de migração para padrões pós-quânticos, o que encurtou a sensação de distanciamento do problema.
Esse tipo de notícia naturalmente assusta os investidores, principalmente os que fazem autocustódia. Mas, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Portal do Bitcoino ponto central não é pânico imediato e sim preparação gradual.
A ameaça continua sendo de médio prazo, mas deixou de ser um debate puramente acadêmico. O investidor não precisa vender Bitcoin por causa disso, mas precisa entender se sua forma de guardar os ativos é mais ou menos vulnerável.
Andre Sprone, chefe da Ibero-América da MEXC, retoma esse ponto de forma direta ao dizer que “nenhum computador quântico atual consegue executar esse tipo de ataque em escala prática”, o que significa que o investidor não precisa tomar “nenhuma medida urgente” por causa disso.
Edil Medeiros, professor da Universidade de Brasília e chefe de pesquisa na Vinteum, vai além e diz que é preciso lembrar que computadores quânticos “ainda são uma realidade matemática e não de engenharia”. Na leitura dele, os avanços recentes são principalmente teóricos e não guardam relação direta com a construção prática de máquinas capazes de atacar a criptografia do Bitcoin no mundo real.
O que o investidor pode fazer na prática
UM orientação mais repetida pelos especialistas é começar pelo básico. Guilherme Sacamone, CEO da OKX no Brasil, diz que “a maioria das medidas de proteção contra a ameaça quântica são as mesmas medidas de higiene básicas que qualquer detentor de Bitcoin deveria adotar de qualquer forma”.
Na prática, isso significa parar de reutilizar endereços, mover moedas de endereços antigos ou expostos para novos endereçosde preferência em padrões mais recentes como Taproot, e usar carteiras de hardware que tenham um caminho claro para atualizações futuras. Ele também recomenda acompanhar as discussões de desenvolvedores e as BIPs (Proposta de Melhoria do Bitcoin) relacionadas ao tema.
1 – Migrar Bitcoin para endereços mais novos
André Franco, CEO da Boost Research, coloca a questão de forma ainda mais direta: a primeira coisa que o investidor precisa saber é “se o endereço dele está vulnerável ou não à computação quântica”.
O professor Edil Medeiros acrescenta um ponto mais específico: para quem quer agir desde já, a defesa mais prática é mover fundos para endereços protegidos por hash, como os que iniciam com “bc1q”, associados aos formatos Seg Wit como p2wpkh e p2wsh. Segundo Medeiros, esses endereços escondem a chave pública até o momento do gasto, o que reduz drasticamente a janela de ataque.
Por outro lado, ele alerta que os endereços Taproot (iniciados em “bc1p”), apesar de serem o formato mais moderno, expõem a chave pública imediatamente na blockchain. Isso poderia conceder mais tempo de ocorrência a um atacante em um eventual cenário de vulnerabilidade futura.
Rony Szuster, chefe de pesquisa da MB | O Mercado Bitcoin, por sua vez, lembra que já há propostas em fase de testes para novos endereços e estruturas resistentes à computação quântica, e o desafio principal é implementar a migração ao tempo. Ele destaca que, mesmo no cenário mais otimista para a ameaça, ainda teria tempo razoável para mover grande parte das moedas para endereços novos e mais seguros.
Na avaliação de Sprone, o investidor médio não precisa resolver às pressas a parte mais técnica da discussão sobre formatos de endereço e exposição de chave pública. “O ponto principal, hoje, é a preparação e higiene operacional, não fato emergencial”, diz.
2 – Se não faz autocustódia, deixe Bitcoin em empresas confiáveis
André Franco também pondera que quem deixa Bitcoin sob custódia de uma exchange confiável ou dentro de um ETF, provavelmente transferir boa parte dessa responsabilidade para a instituição custodiante. Já quem faz autocustódia precisa acompanhar o assunto com mais atenção.
Leia também: Analistas explicam o real risco da computação quântica ao Bitcoin hoje
O professor Edir Medeiros, por outro lado, faz um alerta sobre a dependência de corretoras: como muitas exchanges reutilizam endereços para depósitos e saques, elas podem se tornar alvos especialmente interessantes em um cenário de quebra criptográfica.
Por isso, ele recomenda que quem está realmente preocupado com o risco quântico comece a se educar sobre a autocustódia e a reduzir a exposição a esse tipo de concentração operacional. Apesar disso, os analistas lembram que até o cenário pós-quântico se tornar realidade, as exchanges terão evoluído e melhorado suas proteções.
3 – Acompanhar de perto atualizações do Bitcoin
André Franco não vê motivo para correria, mas aconselha investidores preocupados com essa questão a acompanharem as soluções em andamento pela comunidade do Bitcoin.
Para ele, ainda existe uma janela segura até 2029 para discutir e executar uma solução; o debate, inclusive, já saiu da abstração e entrou na engenharia com o BIP360.
Essa proposta, que trata de saídas resistentes à computação quântica, já tem implementação funcional em rede de teste por iniciativas que experimentem o modelo na prática.
Leia também: O que a comunidade do Bitcoin está fazendo para observar a computação quântica?
Sacamone vai na mesma linha e diz que o processo lento de atualização do Bitcoin, tão criticado por alguns, pode ser justamente uma razão de confiança para que a migração seja feita com mais segurança, testes e consenso.
Não fim, a recomendação prática dos especialistas pode ser resumida da seguinte forma: é preciso entender o tipo de endereço que você usa, evite a reutilização de chaves, nunca prefira carteiras modernas em caso de autocustódia e, caso não a faça, deixe seus bitcoins com custodiantes profissionais ou exchanges confiáveis, sem tomar decisões por pânico.
O risco quântico existe, mas a leitura predominante é que o Bitcoin enfrenta um problema de engenharia com tempo hábil para resposta, que já atrai a atenção dos desenvolvedores, e não uma ameaça imediata de colapso.
Entenda o risco atual da computação quântica
Em termos simples, o risco não é a ideia do Bitcoin “sumir”, mas em computadores quânticos no futuro conseguiremos descobrir a chave privada de uma carteira a partir da chave pública, algo impraticável hoje com computadores tradicionais.
Leia também: Google alerta que ameaça quântica ao Bitcoin pode chegar antes do previsto
O novo material do Google afirmou que certos circuitos quânticos poderiam, em teoria, rodar com menos qubits físicos, tornando mais plausível um ataque dentro da própria janela média de 10 minutos entre blocos do Bitcoin. A empresa classificou isso como motivo para acelerar a migração para criptografia pós-quântica.
Sacamone resume o estado atual da tecnologia com um freio importante: “Nenhum computador quântico existente hoje não tem especificamente a capacidade para executar esse ataque”.
Medeiros, porém, faz um contraponto importante ao clima de urgência. Na avaliação dele, sob a ótica da engenharia, ainda estaríamos “a décadas” de distância de construir máquinas realmente relevantes para atacar sistemas criptográficos com impacto concreto. O argumento de que juntar mais qubits, refrigerá-los em níveis extremos e controlar sua interconexão continua sendo um desafio gigantesco, que depende de avanços materiais e ópticos que hoje ainda parecem muito distantes.
O chefe de pesquisa do Mercado Bitcoin reforça que o problema principal não é a mineração do Bitcoin, mas a criptografia de curva elíptica usada para proteger chaves. Segundo ele, o avanço do Google foi real, mas teórico.
Mesmo assumindo que tudo funcionasse como prometido, o efeito seria reduzir uma estimativa de prazo de algo como 14 anos para 8 ou 9 anos. Para Szuster, isso ainda deixaria tempo para adaptação, especialmente se os desenvolvedores começarem a agir agora, e ele diz que isso já está acontecendo.
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Fonteportaldobitcoin


